Para ser grande

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    Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive.

    Ricardo Reis, 14-2-1933, heterônimo de Fernando Pessoa
Juliano RigattiPara ser grande
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Somos todos Pedro

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É bastante improvável estar na Igreja São Pedro, situada na Avenida Cristóvão Colombo, em Porto Alegre, e não perder-se olhando para os três belos vitrais que estão no topo do seu altar. 

Naquela noite, enquanto eu ouvia as belas canções do coral, eu me perdi. 

Sempre que assumimos algum desafio, do menor ao maior, somos chamados a confiar no que Deus vai providenciar. Com Ele, não há escassez, nada falta. Vejam o belo exemplo da natureza neste início de inverno. Ando pelas ruas e vejo pés e mais pés do chamado limão-bergamota. Quem os cultiva, quase nunca dá conta da abundância da generosidade de suas árvores. Elas os fazem nascer e nos dão de graça. Os galhos pesam, muitos frutos caem e apodrecem. Não deve ser à toa que é na época do ano em que mais precisamos de sua vitamina que o limão nos é dado pela criação. Mas não damos conta, tal é a abundância.

Assim também é a relação com Deus daqueles que a Ele entregam seus projetos, e Nele confiam: tudo nos é dado em abundância. No primeiro vitral, o da esquerda, esta é a mensagem. Como nós, Pedro foi convidado a experimentar a abundância da graça de Deus. Seguiu a orientação de lançar a rede ao mar e surpreendeu-se com a pesca milagrosa quando aquele dia de trabalho já se dava como perdido. Nós podemos fazer o mesmo. Seguir a orientação e lançar a rede. Somos todos pescadores de homens. Somos todos Pedro.

Mas a abundância nos causa estranheza. Em um mundo do individualismo, da competição e do egoísmo, o pouco que temos, batalhamos muito para conquistar. Muitas vezes, invejamos ou tiramos do outro para ter o que queremos. Não reconhecemos a lógica da graça, mas aprendemos a viver apenas a lógica do capital, em que tudo é escasso e desumanizado. Pedro também estranhou e desconfiou da lógica da graça quando, caminhando sobre as águas, Jesus lhe concedeu que fizesse o mesmo. Pedro não confiou e afundou. Desesperado, pediu ajuda novamente. Pediu pela graça em que ele mesmo não acreditou. Não somos todos Pedro?

Somos todos Pedro também quando recebemos de Deus a chave para empreender, para criar neste mundo um mundo melhor para vivermos, para sermos protagonistas e não coadjuvantes. Se Pedro recebeu as chaves do céu, nós recebemos as chaves dos pequenos firmamentos a que somos chamados a construir em nossa famílias, entre os amigos, no trabalho, com quem mais precisa. Somos todos Pedro quando, ao escutar alguém, ligamos a terra e o céu. Somos todos Pedro quando, ao estender a mão, revelamos a um irmão um Deus que é misericordioso mesmo quando tudo parece perdido. Somos todos Pedro quando fazemos uso das chaves que nos foram dadas para abrir a possibilidade do céu para quem só vê a terra. 

Somos todos chamados a ser Pedro. Quando Deus nos oferece sua abundância, quando Deus nos pede confiança e quando Deus nos dá o poder de transfigurar a nossa realidade, criando experiências celestes neste plano.

Somos todos chamados a ser Pedro, mas só ele é São Pedro, o padroeiro, o primeiro papa, a pedra sobre a qual foi construído a nossa Igreja.

Neste triênio em que celebramos os 100 anos da Igreja São Pedro, somos todos convidados a sermos Pedro.

São Pedro, rogai por nós!

Juliano RigattiSomos todos Pedro
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