Há um rato na sala

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Era uma vez uma família.

Um dia, enquanto conversavam na sala, um berro, um grito agudo os interrompeu. “Que foi???”, a filha encarou a mãe. “Um rato!!!”, respondeu-lhe aquela senhora pálida, do alto de sua histeria e de sua cadeira. Acuado, o pequeno intruso congelou entre a estante e a caixa de som. Só os observava. Nem mesmo  se atrevia a mexer o rabo. Prendeu a respiração. Seis pares de olhos o observavam igualmente paralisados. “Tu vais esperar quantas horas, pai?”, questionou a filha adolescente, exigindo uma atitude. “Não!!!”, a mãe interrompeu a reação do pai, “e sujar a parede?!”. “Então o que vocês querem?”, revoltou-se o filho, pegando, do chão, um pé do tênis. “Deixem ele”, falou o pai, com toda sua autoridade de pai. O rato soltou o fôlego. “Essa noite, montarei uma ratoeira e amanhã cedo tudo estará acabado”. Satisfeitos, todos se desmobilizaram e o bichano desapareceu por baixo da TV.

Havia um rato naquela sala. Assustada, a família queria eliminá-lo dali. Agiram como todos agiriam. Afinal, o rato era o problema. A solução, portanto, era acabar com aquele roedor assustado e restabelecer a paz.

Ao menos até que outro rato aparecesse.

Só há ratos onde há restos de comida, onde há sujeira, onde há lixo exposto. Mas aquela família ignorou essas circunstâncias e depositou a atenção no intruso. É assim que a sociedade costuma agir com seus problemas estruturais. Em consequência, é assim que aprendemos a agir contra a epidemia da dependência química: ainda estamos tentando matar o rato que está na sala.

É preciso avançar. É preciso investigar o que o trouxe e o que o sustenta. Que testemunhos pai e mãe deram a seus filhos? Que comportamentos inadequados a família cultivava antes mesmo da droga chegar? Que maus hábitos são comuns até hoje? A família está disposta a mudar as suas atitudes se o dependente aceitar o tratamento? E quando ele voltar, como será? Em todo lar em que a droga faz um doente há inúmeras perguntas como essas sem resposta. E, lamentavelmente, há milhares de outras famílias, pobres, ricas, com ou sem vivência religiosa, em situação de risco. Mais cedo ou mais tarde, enfrentarão o mesmo drama.

O rato precisa ser eliminado? Claro que sim. Transitando pelas salas de nossos lares, ele pode atrair outros roedores e insetos e transmitir doenças até aos vizinhos. É preciso alertar a população para aos malefícios das substâncias químicas? Claro que sim. Mas isso é muito pouco. O fato é que em uma sociedade desestruturada, com valores superficiais e famílias desnorteadas, o vazio existencial surgirá e a droga será a alternativa de muitos, mesmo que saibam de seus males e de suas consequências.

Famílias, voltemos à cozinha! Vamos em busca do que não está certo, dos restos de comida, do lixo da omissão, dos maus hábitos e dos maus exemplos. Deve haver muita sujeira na despensa, deve haver filhos legislando, permissividade em excesso e falta do amor que ama, mas que não aceita o que está sendo feito de errado.

Há um rato na sala, sabemos que há. É preciso que reconheçamos que ele é só um sintoma inevitável de problemas muito mais graves.

(Artigo publicado em setembro de 2011, e parte integrante do livro “O CLJ me enganou”.)

Juliano RigattiHá um rato na sala
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É bela a vida que se dá

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Somos todos diferentes. E embora sejamos únicos, há algo comum em nosso interior: a presença de Deus. Um Deus que quer se realizar neste mundo por meio de nós, usando nossa luz, dando sabor com o nosso sal.

E ser sal e luz do mundo é isso: gastar-nos sendo nós mesmos, atendendo ao chamado particular que Deus nos faz a cada dia. 

Gosto do exemplo simples da vela. Ela foi criada para iluminar. Sua cera a põe de pé com este único propósito. Quanto mais ilumina, mais morre. Quando mais morre, mais permite aos outros enxergar as maravilhas deste mundo. E isso não lhe dói; pelo contrário, a vela é um exemplo de plenitude: é feliz gastando-se em sua missão.

Somos chamados a ser vela. Mas não é fácil. Não é fácil ouvir o chamado no meio de tanto barulho, de tanta distração, de tanta efemeridade que nos é vendida como tesouro. Não é fácil identificar o chamado e assumi-lo em uma realidade em que o valor humano não é medido pelo coração. 

Como diz o Padre Fábio de Melo, “precisamos dilatar as consciências que temos acerca de nossas verdades. É assim que Deus ganha espaço em nós. Quanto mais conscientes do que somos, fazemos e podemos, muito mais próximos estaremos da realização para a qual fomos projetados”.

Você e eu fomos projetados para a felicidade. E a nossa felicidade reside no sutil e delicado ponto onde se encontram dois aspectos de nosso eu: aquele que nos realiza e aquele que deixa o mundo um pouco melhor.

Neste dia 13 de maio de 2017 completo 35 anos. Rogo a Deus que, com a intercessão de Nossa Senhora de Fátima, me dê saúde e inteireza para sempre me realizar em uma vida que é bela porque se dá.

Juliano RigattiÉ bela a vida que se dá
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40 anos de CLJ

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Não venha me dizer que alguém, algum dia, entrou no CLJ para ter a experiência de Jesus Cristo. Para ser convertido. Para ser evangelizado. Ou melhor, para se tornar um líder.

Nem vem.

Os motivos para a primeira tarde deste movimento sempre foram outros. Mais ou menos santos, mas foram outros. Por isso que sempre disse que O CLJ me enganou ao longo desses 40 anos. Você que começou pela insistência de um amigo. Você que entrou para se aproximar daquela guria. Para jogar bola com a turma. Para poder frequentar as aulas de violão. Porque a família toda estava lá — ou só a irmã mais velha. Você que entrou com uma data para sair. Você mesmo. Você que entrou e ficou, você foi enganado. Porque ninguém, no auge dos seus 14 anos, é capaz de supor o que viveria a partir da decisão de ficar. Até porque não foi uma decisão. E até porque com esta idade não se decide nada na vida. Você foi ficando, foi ficando. Até o dia que decidiu sair. Que também não se decide sair. Quando saímos é porque já estávamos fora há algum tempo. Depois do CLJ, do tempo que você ficou lá, você se transformou no que você é hoje. Se já lá o que for. Está bem, no mínimo, a sua espiritualidade é outra. Ou é completamente outra. Como no meu caso.

Mas voltando ao fato de termos sido ludibriados. Se serve de consolo, saiba que nem você, nem eu, fomos seduzidos por um movimento qualquer. “Se este Movimento vem de Deus, ele vai durar e trazer muitas vocações. Mas se não vem de Deus, daqui a pouco nós vamos acabar com isso”, foi o aviso que, em 1975, Dom Zeno ouviu do então Arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer. Suponho, portanto, que estejamos falando de uma iniciativa de Deus.

E sobre esta obra divina, deixem eu lhes dizer algumas coisas.

Como cristão, participei de movimentos jovens durante mais de 15 anos. E ainda tenho algum contato com eles. Fui me dando conta ao longo do tempo que o jovem precisa honrar suas experiências cristãs alterando o seu comportamento no mundo. A tal “ação” do tripé estudo-piedade-ação e as tais “obras”, a que se refere São Tiago quando diz que sem as quais a fé é morta, não se resumem à caridade, como poderíamos supor. Também são a caridade, mas não só. A experiência com Jesus Cristo nos torna capazes de agir como Jesus Cristo. Em todas as nossas relações. Porque é de relações que a vida é feita, meu caros. Entre amigos, no trabalho, na família, no futsal, na balada. Você aconselha ou se cala? Você aponta o dedo ou se acovarda? Você tolera ou explode? Você julga ou analisa os contextos? Você elogia ou se envaidece? Você compreende seus limites ou os desconhece? Você coopera ou oprime? Você esgota todas as forças ou você se ama?

Olhemos para a história que nos trouxe até aqui. Porque vocês e eu somos produto da história.

No ano de 1974, em plena turbulência política e social do Brasil, quando a Igreja tentava consolidar no país a sua opção pelos pobres, desvinculando-se das classes dominantes, Porto Alegre assistiu o surgimento de um dos mais transformadores grupos de jovens da região Sul do país: o Curso de Liderança Juvenil (CLJ). Depois do Emaús, o CLJ foi um dos primeiros movimentos a reunir novamente os jovens – coisa que o golpe militar proibiu à base de agressões, torturas e matanças – e fazê-los canalizar toda energia pelo anúncio do evangelho e da mensagem de Jesus Cristo.

Em março de 2009, durante entrevista que fiz com Dom Zeno, fundador do CLJ, bispo de Novo Hamburgo e presidente do Regional Sul 3 da CNBB, reconheci a importância histórica deste grupo. Dom Zeno contou-me que ficou todo o ano de 1973 sem distribuir comunhão a jovens. Acredite: nenhum jovem comungara com ele durante todo o ano, na paróquia São Pedro, em Porto Alegre.

Não havia jovens na missa. Nem, sequer, um.

E parte da explicação está aqui: a Igreja apoiara a repressão nos anos 60. E tenho a impressão que nem as tentativas de modernização surgidas a partir do Concílio Vaticano II, em 1962, e da II Assembléia Geral da Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medelin, na Colômbia, em 1968, conseguiram renovar suficientemente a imagem da Igreja Católica, a ponto de fazer a juventude participar novamente – como o fizera na Ação Católica e na JUC (Juventude Universitária Católica), por exemplo.

Mas os jovens voltariam a se reunir em torno de Jesus Cristo.

E vejam a coincidência dos números: 74 crismandos, em 1974. Foi por meio da Crisma, que Dom Zeno reaproximou a juventude de Deus. Um retiro com crismandos, realizado em 14 e 15 de julho de 1974, com poucas adesões, transformaria para sempre a cara da Igreja jovem no Rio Grande do Sul. Mesmo com o relato quase emocionado do padre, continuei intrigado.

– O que os fazia voltar? – perguntei.

Quase não terminei de perguntar e já ouvia a resposta de Dom Zeno. Aquilo não estava só na ponta da língua, como dizemos, era uma convicção.

– A descoberta de Jesus Cristo – disse ele, taxativo.

E dali, não parou mais de listar razões que lhe eram tão verdadeiras como se aqueles 19 jovens estivessem à sua frente naquele momento.

– A possibilidade de poder conversar com ele diretamente e ao vivo. E se ele está aqui, vivo, diziam, então valia a pena. Aquele Jesus era uma novidade fantástica para eles. Eles acreditavam em um Jesus morto na cruz, de uma morte que aconteceu há dois mil anos e que não tinha mais nada a ver com eles. Conheciam um Cristo sofrido. Mas o Cristo que está vivo no sacrário, conversando conosco, desse eles não tinham ideia. Quando eles descobriram este outro Cristo, eles se empolgaram por ele.

O fato é que os jovens conheceram um Jesus Cristo humano, próximo. E gostaram de revê-lo toda semana, gostaram de se reunir em torno dele. Os movimentos prosperaram e se multiplicaram. Nessas qiuatro décadas, só no CLJ, milhares de adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer o evangelho e a receita de felicidade ensinada por Jesus Cristo.

Mas a juventude se acomodou.

Sem entrar na discussão das inclinações políticas presentes nos movimentos populares da Igreja nas décadas de 60 e 70, precisamos voltar nosso olhar para aquela época e perceber que só faremos a diferença se formos ao encontro de quem precisa e se vivermos de acordo com os valores que pregamos. Jesus Cristo não veio para os fortes, mas para os doentes. Não ficou em sua terra natal, mas viajou ao encontro dos necessitados. Não fez pelos apóstolos, mas os ensinou a pescar. Não foi condescendente, mas firmou o pé em suas convicções.

Pense no seu grupo.

Como os jovens se comportam em casa depois de voltarem saltitantes de um retiro? Em que aspecto as relações no trabalho melhoram depois de três dias olhando para dentro de si e revendo atitudes? Não é fácil viver a lógica do amor, mas é o único caminho. Sei que já existem realidades que me contrariam, mas tenho certeza que a provocação é oportuna.

Deixo aqui trecho da segunda carta de São Paulo ao Tessalonicences, escrita provavelmente no ano 70:

“Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder; Para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja em vós glorificado, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.”

É urgente que Deus no faça dignos de nossa vocação, como pede São Paulo. Como Zaqueu, que subiu em uma árvore para ver Jesus Cristo, porque alguma coisa o chamava, precisamos também ouvir esta voz que chama e fazer o esforço da subida. Há milhares, milhões, precisando de nós. Há gente sem ter o que comer, há gente satisfeita com a vida egoísta que leva, há gente sem motivos de ver o sol do dia seguinte nascer, há gente dependente de susbstâncias químicas para ter algum prazer na vida. A messe é grande e ocasião não nos falta. Há muita gente precisando de nós. Precisando da juventude e da Igreja do futuro, que está sendo construída agora. Rezemos para que Deus entre na vida de nosso movimentos, mexa na estrutura, sare as feridas da acomodação, da hipocrisia, e os coloque à buscar. Mais 40 anos.


(Artigo publicado em julho de 2014 e parte integrante do livro O CLJ me enganou.)

(A foto deste artigo tem crédito do site EaíTchê – Serviço de Evangelização da Juventude: https://www.eaitche.com.br/portal/noticias/regional/clj-40-anos-de-lideranca-jovem)

 

Juliano Rigatti40 anos de CLJ
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O CLJ me enganou

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Eu era um guri verde com os meus quatorze anos. Dentro da minha jaqueta parcá bege, da minha segunda ou terceira calça jeans e atrás da armação dos óculos, eu era um guri verde. E por ser assim, acho que exatamente por ser assim, fui enganado. Ludibriado pelo CLJ durante longos seis ou sete anos da minha vida.

E vou explicar isso pra vocês.

Para quem não o conhece, a sigla quer dizer Curso de Liderança Juvenil. É um movimento de jovens da Igreja Católica do qual participei durante uma longa e marcante fase da juventude.  Já desconfiava faz tempo de toda essa farsa. E a confirmação de tudo começou há algumas semanas. Quando conheci de perto e passei a admirar o trabalho do Movimento Cultural Canta Brasil.

A Jac, amiga minha e colega de trabalho, e eu fomos visitar, em Canoas, o Instituto Movimento Cultural Canta Brasil, no bairro Mathias Velho. O Canta Brasil é uma ONG nascida na periferia da cidade e obcecada em usar a arte para mudar a vida das pessoas. Isso
desde cedo. Desde a infância e adolescência. Na Casa Azul, que tem esse nome porque é uma casa e porque é azul, jovens dos bairros Mathias Velho, Guajuviras e Harmonia, todos de Canoas, recebem aula de dança e de música nos horários em que não estão estudando. Mas as aulas não formam dançarinos, nem formam cantores.

Sabem que muitas vezes eu pensei em não ir mais? Eu, um guri verde, sendo iniciado em um grupo de jovens, com mais de cem desses jovens, com a triste impressão de que acabaria perdendo a minha liberdade de sábados à tarde em troca de horas e horas de oração, de palestras, de exposição a pessoas novas e de oração de novo. Mas precisou de muito pouco tempo para que o Juliano daquele tempo mudasse de idéia, descobrisse que não rezaria demais, nem estudaria tanto assim – embora, mais tarde, eu fosse lamentar a falta de tempo para fazer mais das duas coisas. Demorou pouco tempo para eu pegar gosto por aquela gente, por aquele grupo.

O Canta Brasil tem uma estrutura de trabalho que dá mostras da seriedade com que a coisa é feita. Num primeiro momento, durante variadas oficinas artísticas aplicadas com centenas de crianças e jovens de oito escolas de três bairros, a coordenação, acompanhada por consultores profissionais remunerados, começa a identificar talentos e lideranças em ruelas e casebres onde a lógica, em muitos casos, só daria abrigo a famílias desestruturadas, crianças traumatizadas, adolescentes traficantes e jovens prostituídas. O método aplicado, chamado de tecnologia social, contraria essa coerência.

Fiz muito no CLJ que contrariou minha história de vida de jovem tímido e inseguro. Li em público, falei em público, dei palestras em público. Aprendi a tocar violão, ensinei a tocar violão, cantei, bati palmas e dancei. Liderei grupos de trabalho e coordenei retiros de três dias. Xinguei, fui xingado, magoei, fui magoado. Chorei e também vi muitos chorarem. Uns de alegria, outros de pura decepção. Levei alguns para participar do CLJ e conheci muitos amigos lá. Muitos mesmo. Gente de quem sou amigo até hoje. Vi gente crescer. Entrar novinho e verde como eu e ficar grande. Vi gente ensinar o que aprendeu. Vi gente abraçando desconhecidos e vi gente confidenciando segredos para um rosto que era um sorriso só. Vi a minha mudança e a de muita gente no CLJ.

Mais de três mil crianças e jovens já passaram pelo Canta Brasil desde o seu início há nove anos. Atualmente, são quase 600. Muitos hoje estão na faculdade, muitos fazem inglês, freqüentam academia. Muitos melhoraram seu aproveitamento no ensino fundamental e no ensino médio. Muitos outros permitiram que a ONG entrasse até em casa, envolvendo pais e irmãos na missão de ganhar dignidade e transformar a sociedade. No mínimo, da sociedade pequenininha da qual fazemos parte. Do nosso círculo de amigos e vizinhos. Alguns do Canta Brasil hoje são quase artistas. Cantam, dançam, compõem com gente famosa. Jovens que um dia foram beneficiados pela tecnologia social que os transformou. Levam adiante uma corrente do bem que não se paga, que não tem preço, mas que ao mesmo tempo muda destinos em uma sociedade movimentada pelo capital. “Aqui, a arte não os ensina apenas a serem artistas. Aprendem sobre disciplina, sobre ética, sobre cidadania, sobre auto-estima, sobre dignidade, sobre estética, sobre bons modos”, contou-nos uma das profissionais consultoras do Canta Brasil quando Jac e eu estivemos na Casa Azul. Como eu, eles também são enganados.

Durante seis ou sete anos fiz parte de uma sociedade paralela, que acontecia na maior parte do tempo nas tardes de sábado, em um salão paroquial de alguns poucos metros quadrados. Sempre disse isso pra mim mesmo e para alguns mais chegados. Porque o CLJ era uma sociedade, sim senhor. Para viver ali era preciso perdoar, era preciso não mudar de opinião, era preciso fazer diferente de todo mundo, para mostrar o verdadeiro valor de alguma coisa. Era preciso consolar, engolir sapos, entusiasmar, cantar e fazer silêncio, um profundo silêncio muitas vezes. Foi preciso valorizar as pessoas por mais que elas insistissem em mostrar novos defeitos, por mais que elas não tivessem a mesma opinião sempre, o mesmo comportamento que o meu. Também foi preciso fazer primeiro. Liderar pela palavra e liderar pelo exemplo. Tivemos que planejar muitas coisas e tivemos que riscar muita idéia no papel. Corremos muito para ficar tudo pronto, improvisamos e esquecemos de cumprir muita promessa. Vimos a sala sempre cheia e também a vimos com alguns gatos pingados. Valorizamos os que estavam e reclamamos da cadeira vazia. Vi muitos de quem eu gostava e até admirava deixar o CLJ. Tinham envelhecido ali e a vida os tirava de nós. Outros chegavam para continuar o trabalho. Vi o movimento se renovar exatamente dessa forma.

O que o Canta Brasil me fez lembrar do CLJ é que tanto o Canta Brasil quanto o CLJ são ferramentas de transformação social. Eu fui um transformado socialmente. Milhares de outros jovens que já passaram pelo CLJ também foram transformados. Hoje são professores, são médicos, são jornalistas, são advogados, são pais e mães de família, são padres, são empreendedores, são palestrantes, são criaturas humanas, são cidadãos. Como as crianças do Canta Brasil. Um movimento que trouxe do AfroReggae, do Rio de Janeiro, um jeito de fazer as coisas serem diferentes para os seres humanos. Sem cirurgia, sem penitenciária, sem cadeia, sem ganhar na megasena.

Por isso que, sem saber, eu e você, que já foi do CLJ, fomos enganados. Achamos que estávamos ali para aprender a rezar, para entender a importância do sete dons do Espírito Santo, do exemplo de Maria, a mãe de Jesus. Pensei que aquele curso lá no seminário de Viamão fosse para converter jovens e reforçar a fé deles em Jesus Cristo e na igreja católica. Pensei que me elegeram para coordenar o movimento ali da paróquia para fazê-lo crescer, para receber mais jovens, e para dar continuidade ao grupo. Que nada! Mesmo que hoje eu reze e que converse com o mesmo Jesus Cristo que me apresentaram um dia no CLJ, há mais de 12 anos, me sinto enganado. Um idiota.

Como o Canta Brasil também não existe apenas para formar artistas, o CLJ não nasceu para ensinar a rezar ou inflar as missas estado a fora. Mais do que participar de reuniões intermináveis, aprendemos a fazer gestão de pessoas; mais do que fazer silêncio, aprendemos a pensar na vida; mais do que fazer diferente, bolar uma coisa legal e escrever um texto que tocasse as pessoas, estávamos sendo pedagogos, publicitários, jornalistas, estávamos sendo criativos! Mais do que confira no pedido feito em silêncio na capelinha, aprendemos a valorizar a fé. Mais do que fazer primeiro, aprendemos a liderar.

O próximo sábado vai celebrar, com uma janta na paróquia Nossa Senhora das Graças, em Canoas, os 30 anos do Movimento Curso de Liderança Juvenil, o CLJ, dessa cidade. Mesmo não estando, todos as centenas de milhares de jovens que emprestaram parte de suas vidas a grupos do CLJ país afora estarão jantando conosco. Muitos de nós hoje, mesmo enganados, ludibriados, podemos olhar pro canto esquerdo de cima do olho, lembrar do tempo bom que não volta nunca mais e dizer, a si mesmo, com orgulho, que fez o mundo um pouco melhor porque nele viveu e porque por ele passará.

Em foto clássica, retiro do CLJ da minha irmã, de quem recebi o convite para fazer parte do CLJ

Em foto clássica, retiro do CLJ da minha irmã, de quem recebi o convite para fazer parte do CLJ


(Este artigo foi publicado em agosto de 2008, e hoje é parte integrante do livro O CLJ me enganou.)

 

Juliano RigattiO CLJ me enganou
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Só por hoje

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Há uma camiseta de tecido claro estendida no chão da entrada do salão do Centro de Recuperação Imaculada Conceição, em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Ela é pisada por todos os que entram no local, rapazes dependentes químicos, seus monitores e visitantes. Molhada e completamente tomada por uma fina areia marrom, poucos se dão conta da sua presença. Embora ela tivesse sua função, com a umidade e a chuva do último sábado, seria inútil qualquer tentativa de manter o salão seco e limpo. Mas ela permaneceu ali, imunda, durante todo o dia, enquanto rezávamos, partilhávamos experiências de vida e plantávamos esperança no coração de 38 adictos em recuperação.

Já era escuro, meus olhos inchados e embaçados de emoção, quando reparei a primeira vez na tal camiseta, enrolada no piso frio e escorregadio por onde passávamos. Alguns se despediam, prometendo voltar, outros, agradeciam pelo dia e, sem dizer, nos revelavam, pelo brilho do olhar, que aquele era, mais uma vez, o primeiro dia de suas vidas.

A camiseta suja serviu de metáfora do que vivemos no 1º Retiro do Movimento Cenáculo de Maria na CRIC, casa que acolhe cidadãos que desejam limpar seu organismo e libertar sua alma das drogas. Chegam ali como aquela camiseta, tomados pela sujeira da falta de dignidade, desprezados por uma sociedade avessa aos valores cristãos e com quase nenhuma esperança. Muitos deles, conhecendo a pobreza e a dificuldade, fizeram da droga uma tentativa de fuga da realidade. Outros, como o rapaz que nos deu seu depoimento e com quem conversei, ascenderam financeiramente e despencaram ao fundo do poço. Restaram alguns reais para pagar a triagem e cobrir os custos mensais com o Centro. “Tinha uma esposa, um filho, abri um negócio próprio, cheguei a ter 15 funcionários, e perdi tudo”, contou-me. A decisão pela recuperação veio dentro de um motel, enquanto consumia, sozinho, a última quantidade de cocaína que levava nos bolsos. “Olhava para os espelhos e não me via. Tive tudo, mas faltava-me Deus”, concluiu.

A CRIC é apadrinhada pela paróquia Imaculada Conceição, da Igreja Católica, localizada no bairro Rio Branco, em Canoas. O movimento Cenáculo de Maria, da mesma paróquia, do qual participo, foi quem idealizou o retiro. A ligação do Cenáculo com as drogas já contei aqui. Graças a isso, tínhamos também entre nós, no sábado, cenantes que livraram-se da dependência química e hoje visitam a CRIC pra testemunhar que há, sim, dias iluminados fora do túnel do vício. “Eu nunca vi eles tão felizes, cara, nunca. E pra mim, que já estive aqui, então, isso está sendo maravilhoso”, ouvi de um deles.

Durante os nove meses de tratamento na CRIC, os jovens e adultos em recuperação estudam a Bíblia, trabalham na horta, na ordenha dos animais, na manutenção da estrutura e na preparação das refeições. De todas, a tarefa mais exigente, certamente, é olhar pra si próprio. “Acordo todos os dias e tenho que me encarar, admitir que fiz tudo errado e recomeçar”, disse um dos residentes, que já está no Centro pela segunda vez, depois de ter ido embora e recaído na primeira tentativa.

Sempre que tive oportunidade, parabenizei uma daquelas pessoas pela coragem. Não é fácil tomar a decisão de ir até a fazenda. Menos fácil é dizer para si, a cada manhã, só por hoje não vou mais pecar. Porque lá, eles vivem um dia de cada vez. Como nós vivemos, sem nos dar conta. Para emagrecer, para passar no concurso, para construir uma carreira bem-sucedida. Cada uma dessas conquistas, como para largar o vício, requer coragem de viver um dia de cada vez. Mas mais vital do que qualquer objetivo que tenhamos aqui fora, lá na CRIC só o que eles querem é merecer suas vidas de volta. E como querem.

Bem no início do dia que passamos juntos, sentei-me num dos primeiros bancos do salão, depois de uma das primeiras palestras, e ouvi-os cantar junto conosco. Mas não cantei. Porque não pude. Era forte e bonito demais ouvir a voz de cada um deles transformada em uma só, preenchendo o ar daquele salão. “Lágrimas são suor de almas que lutam só. Só Deus pode entender o que lhe causa dor. (…) Pare de se maltratar, não queira os outros culpar e diga: ‘por hoje não. Por hoje eu não vou mais pecar'”, cantavam eles.

Rezarei para que daqui nove meses nenhum deles esteja mais na CRIC. Que estejam reescrevendo a história. Que nasçam de novo nessa segunda gestação. E pelo trabalho que é realizado na CRIC, não serão só cidadãos limpos nossos amigos de sábado. Serão multiplicadores da receita da felicidade revelada por Deus a nós desde os 10 Mandamentos. Felizmente, daqui nove meses, teremos mais gente por aí dizendo que, embora o mundo nos faça chorar, Deus nos quer sorrindo.

***

Fé e ação

Talvez o Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas esteja inaugurando uma nova fase dos movimentos de jovens e adultos da Igreja Católica. Tudo começou no 140º Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas. Já falei dele aqui. A presença de uma dezena de jovens dependentes químicos em recuperação entre nós foi a primeira das bênçãos. A segunda, foi poder perceber como o Cenáculo atuou na ressocialização dessas pessoas. Porque quando saem dos Centros de Recuperação não é de emprego que precisam, não é de comida que precisam, não é de sexo que precisam.

Eles precisam de Deus.

E o Cenáculo de Maria, o grupo de jovens iluminados que se reúne aos sábados à tarde na paróquia Imaculada Conceição, em Canoas, este grupo está fazendo o papel de manter viva a chama da fé em nossos amigos.

Os movimentos de jovens e adultos que conheço são todos muito parecidos. Basicamente, repetem a fórmula de conversão de seu público em retiros de um final de semana. O Cenáculo também é assim. Igualmente, cumprem sua função social e cristã de forma transformadora. Já falei aqui no blog de como o CLJ mudou minha vida.

O Cenáculo parece estar indicando o amadurecimento disso tudo. É preciso avançar para águas mais profundas. Aliar a fé com obras, como esse pessoal do Cenáculo está fazendo, pra mim está sendo uma feliz e renovadora novidade.


(Artigo publicado em julho de 2010 e hoje parte integrante do livro O CLJ me enganou.)

 

Juliano RigattiSó por hoje
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Eu financiei um livro coletivamente

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A gente só reconhece o que conhece.

Definitivamente. E eu só fui reconhecer a força da equação abaixo quando conheci pessoalmente o seu resultado.

propósito + tecnologia + multidão = realização

Há pouco mais de 60 dias, coloquei no ar uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a editoração e impressão de um livro que escrevi. Em dois meses, eu precisava juntar R$ 10.915.

Primeiro passo

É preciso dar-se conta que não é porque a internet é esta maravilha toda que a coisa vai ladeira abaixo. Não foi fácil mobilizar as pessoas, sensibilizá-las para a importância, insistir com as taxas de conversão que me desanimavam. Quase sempre 10% ou 20% daqueles que você acha que irão aderir realmente aderem.

Segundo passo

Conte com sua rede mais próxima antes de pôr a campanha no ar. Venda antes o projeto a familiares, amigos e pessoas com mais chances de comprar a ideia. Se achar que merece, crie uma página no Facebook e faça aquele aquecimento. Para você não perder um só dia quando o tempo começar a correr. Eu criei a minha. Avise quando a campanha for ao ar por canais que você tenha certeza que todos ficaram sabendo (ao menos). Cara de pau? Sim, vista-se dela durante o tempo necessário.

Terceiro passo

Seja atencioso, criativo, persistente e mantenha o ritmo. Conheci muita gente boa, criei belos vínculos com uma galera que talvez nunca conheceria. Ouvi e li coisas que me emocionaram profundamente. No entanto, para algumas pessoas, acho que eu fui um grande chato; para outras, também. Mas, desculpa, pessoal, era necessário.

gravatai

Partilha que promovi durante encontro do CLJ da paróquia Nossa Senhora de Fátima, de Gravataí

No final, eu consegui.

É inestimável o valor de uma campanha finalizada, com 118% da meta alcançada e uma comunidade de mais de 500 pessoas mofinalizadobilizadas e manifestando a todo momento seu carinho, gratidão e apoio ao projeto. Um projeto que nasceu meu e que passou a ser de cada um que contribuiu com qualquer moeda.

Virou clichê a frase atribuída a Raul Seixas segundo a qual um sonho sonhado sozinho é um sonho, mas um sonho sonhado junto é realidade. Mas é a mais pura realidade quando se vive o momento que estou vivendo.

Não é novidade que a internet reúne multidões, lota passeatas, ocupa praças e escolas e junta, até em 24 horas, a grana necessária para a cirurgia de uma criança.

Mas é diferente quando a experiência é pessoal.

O financiamento coletivo do meu livro é a concretização da capacidade da internet e de seu modelo que potencializa o coletivo. Seja quem for o seu agente.

E é preciso ter valor.

Não tenho dúvida que consegui expressar com conteúdo o propósito que move este projeto, e que a isso também se deve o sucesso da campanha.

É um marco de vida experimentar a força desta equação. Sem ela, suponho que o livro O CLJ me enganou nunca existiria. Simples assim.

Muito obrigado a todos! De coração.

Juliano RigattiEu financiei um livro coletivamente
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LIVRO: O CLJ me enganou

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NOVIDADE! Antes de você ler este post de 2014, tenho uma novidade: o livro O CLJ me enganou é uma realidade! Ele encontra-se em fase de pré-lançamento, e neste momento eu preciso da sua ajuda. Como não tenho editora, criei uma vaquinha na internet para arrecadar os recursos necessários para a editoração e impressão da obra. Funciona assim: você acessa o site abaixo, contribui com R$ 30 e já garante o seu exemplar. Acesse, saiba mais e deixe sua contribuição: www.catarse.me/ocljmeenganou

Em agosto de 2008, escrevi uma crônica sobre o CLJ, movimento católico que completa 40 anos em 2014. Tentei reproduzir, no texto, meu sentimento de admiração e gratidão por algo que foi essencial durante seis anos da minha vida. Para minha surpresa, a identificação das pessoas com ele foi grande. Recebi muitos comentários emocionados e até hoje, seis anos depois, a proposta provocadora da crônica repercute.

Em 2009, surgiu a vontade de ampliar o assunto e escrever um livro. Visitei Dom Zeno Hastenteufel, bispo de Novo Hamburgo e criador do CLJ. Tenho mais de uma hora de nossa conversa gravada e grande parte dela já colocada no papel. Guardo com orgulho esse tesouro.

Mas a rotina me engoliu e a ideia do livro ficou pelo caminho.

Esta semana, o incentivo carinhoso de algumas pessoas queridas, somado a alguns bons propósitos que tenho, fizeram a visão de um livro ressurgir, acompanhada de entusiasmadas ideias.

Antes de ir em frente, porém, queria ouvir as pessoas que leram, curtiram o texto e se sentem parte do CLJ, no passado ou no presente. Não pretendo fazer um resgate histórico do Movimento — embora sua história seja riquíssima, com números que impressionam e uma relação com a Ditadura bastante interessante.

O livro seria importante em quê? Que conteúdos ele poderia trazer? Com o que vocês podem contribuir? Posso contar com vocês para colher depoimentos e informações?

Comentem aqui mesmo. Espero vocês.

Um abraço,
Juliano Rigatti

Juliano RigattiLIVRO: O CLJ me enganou
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O jovem e a Igreja

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Volto da missa no último domingo do mês de outubro de 2010, dia em que foi comemorado o Dia Nacional da Juventude, e alguns fatos históricos, e outros bem práticos, me fazem pensar.

Como cristão, participo de movimentos jovens há 14 anos. Fui aprendendo ao longo do tempo que o jovem precisa honrar sua vivência por meio do tripé estudo, piedade e ação. Não é possível que saiamos pelas ruas fazendo algo em nome do bem comum, se não tivermos nossa experiência com Jesus Cristo e não formos convencidos das motivações de nossos gestos. A missão não durará muito. Igualmente – e mais grave –, é inconcebível que estudemos nossas raízes cristãs, partilhemos nossas histórias de vida e nos aproximemos da Eucaristia, mas não façamos nada pelo outro. Repito: é inaceitável. Aprendi isso com o tempo. Aprendi que o jovem cristão precisa abastecer-se no grupo, seja ele qual for (CLJ, Cenáculo de Maria, Emaús, EJC, etc.), para sair às ruas e transformar o pequeno mundo que o cerca.

No ano de 1974, em plena turbulência política e social do Brasil, quando a Igreja tentava consolidar no país a sua opção pelos pobres, desvinculando-se das classes dominantes – Porto Alegre assistiu o surgimento de um dos mais transformadores grupos de jovens da região Sul do país: o Curso de Liderança Juvenil. Depois do Emaús, o CLJ foi um dos primeiros movimentos a reunir novamente os jovens – coisa que o golpe militar proibiu à base de agressões, torturas e homicídios – e fazê-los canalizar toda energia pelo anúncio do evangelho e da mensagem de Jesus Cristo.

Em março de 2009, durante entrevista que fiz com Dom Zeno, fundador do CLJ e então arcebispo de Novo Hamburgo, reconheci essa importância histórica deste grupo. Dom Zeno contou-me que ficou todo o ano de 1973 sem distribuir comunhão a jovens. Acredite: nenhum jovem comungara com ele em 1973, na paróquia São Pedro, em Porto Alegre.

Os jovens simplesmente não iam à missa.

E parte da explicação está aqui: a Igreja apoiara a repressão nos anos 60. E tenho a impressão que nem as tentativas de modernização surgidas a partir do Concílio Vaticano II, em 1962, e da II Assembléia Geral da Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medelin, na Colômbia, em 1968, conseguiram renovar suficientemente a imagem da Igreja Católica, a ponto de fazer a juventude participar novamente – como o fizera na Ação Católica e na JUC (Juventude Universitária Católica), por exemplo.

Mas os jovens voltariam a se reunir em torno de Jesus Cristo.

E vejam a coincidência dos números: 74 crismandos, em 1974. Foi por meio da Crisma, que Dom Zeno reaproximou a juventude de Deus. Um retiro com crismandos, realizado em 14 e 15 de julho de 1974, com poucas adesões, transformaria para sempre a cara da Igreja jovem no Rio Grande do Sul. Mesmo com o relato quase emocionado do padre, continuei intrigado.

– O que os fazia voltar? – perguntei.

Quase não terminei de perguntar e já ouvia a resposta de Dom Zeno. Aquilo não estava só na ponta da língua, como dizemos, era uma convicção.

– A descoberta de Jesus Cristo – disse ele, taxativo.

E dali, não parou mais de listar razões que lhe eram tão verdadeiras como se aqueles 19 jovens estivessem à sua frente naquele momento.

– A possibilidade de poder conversar com ele diretamente e ao vivo. E se ele está aqui, vivo, então valia a pena. Aquele Jesus era uma novidade fantástica para eles. Eles acreditavam em um Jesus morto na cruz, de uma morte que aconteceu há dois mil anos e que não tem mais nada a ver comigo. Conheciam um Cristo sofrido. Mas o Cristo que está vivo no sacrário, conversando contigo, desse eles não tinham ideia. Quando eles descobriram este outro Cristo, eles se empolgaram por ele.

O fato é que os jovens conheceram um Jesus Cristo humano, próximo. E gostaram de revê-lo toda semana, gostaram de se reunir em torno dele. Os movimentos prosperaram e se multiplicaram. Nesses 36 anos só de caminhada do CLJ, milhares de adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer o evangelho e a receita de felicidade ensinada por Jesus Cristo.

E o advento das mídias sociais ampliou de forma incrível as possibilidades dos jovens se encontrarem. Só uma grande transformação política nos impediria novamente de compartilhar nossos pensamentos, de unir nossa vontade de mudar o mundo. Já viram a quantidade de jovens cristãos usuários de redes como Orkut, Facebook e Twitter? Mesmo que não vá à reunião do grupo de jovens, os integrantes se falam e permanecem conectados à causa. Isso tudo é muito positivo.

Mas a juventude se acomodou.

Sem entrar na discussão das inclinações políticas presentes nos movimentos populares da Igreja nas décadas de 60 e 70, precisamos voltar nosso olhar para aquela época e perceber que só faremos a diferença se formos ao encontro de quem precisa. Jesus Cristo não veio para os fortes, mas para os doentes. Não ficou em sua terra natal, mas viajou ao encontro dos necessitados. Se transformarmos nossos movimentos em clubes de jovens, que só se divertem juntos e se preparam o ano inteiro para dois retiros anuais, estamos fazendo pouco, estamos fazendo muito pouco.

Deixo aqui trecho da segunda carta de São Paulo ao Tessalonicences, escrita provavelmente no ano 70, lida na missa deste dia 31/10/2010, Dia Nacional da Juventude:

Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder;Para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja em vós glorificado, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.

É urgente que Deus no faça dignos de nossa vocação, como pede São Paulo. Como Zaqueu, que subiu em uma árvore para ver Jesus Cristo, porque alguma coisa o chamava, precisamos também ouvir esta voz que chama. Há milhares, senão milhões, precisando de nós. Há gente sem tem o que comer, há gente sem ter com o que sonhar, há gente sem motivos de ver o sol do dia seguinte nascer. Por onde passamos, há dependentes químicos, há gente com câncer, há pessoas com esquizofrenia, há colegas de aula e de serviço com depressão. Trabalho e motivo não nos falta. Há muita gente precisando de nós. Precisando da juventude e da Igreja do futuro que estamos fazendo agora. Rezemos para que Deus entre na vida de nosso movimentos, mexa na estrutura, sare as feridas da acomodação, da hipocrisia, e os coloque à caminhar, à evangelizar.

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra Te ver, olhar para Ti
E chamar Sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti, oh Pai
Sou pequeno demais
Me dá Tua paz
Largo tudo pra Te seguir
Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a Ti
Porque o Senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim

Shalom!

Juliano RigattiO jovem e a Igreja
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