Os seios da minha professora de História

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Saíamos da sala de aula e só do que nos lembrávamos era da protuberância dos seus seios.

E é bem provável que mesmo se as aulas de História fossem bem melhores do que eram, se nossa professora chamasse nossa atenção para um ensino de qualidade, não deixaríamos de terminar a aula pensando nela do jeito que pensávamos, adolescentes que éramos. O problema é que uma dezena de anos depois precisei dessas aulas de História e, pesquisando em minha memória, encontrei nelas pouca coisa além da lembrança maliciosa das partes íntimas de nossa professora.

O que passei a valorizar no ensino do desenvolvimento da espécie humana é, de certa forma, o mesmo motivo pelo qual os jovens da conhecida Geração Y são criticados: não há como haver aprendizado se não compreendermos que tudo está correlacionado.

Decorávamos as coisas em separado; era o que fazíamos nas aulas de História. A professora explicava o que havia acontecido em determinada data, chamava nossa atenção para causas e consequências, nós olhávamos para os seus seis, abaixávamos a cabeça e anotávamos: data, causa e consequencia. Era assim que aprendíamos. Do que éramos cobrados em prova? De data, de causa e de consequência. Os três para cada um dos grandes fatos históricos, sem saber que nada – nada! – acontece de importante entre os homens sem que haja relação direta com algum outro evento igualmente importante.

Embora não tenham estudado comigo – pelo menos eu não me considero um Geração Y genuíno – essa gente vive parte deste mesmo problema. Nasceram em pleno apogeu da era da informação. Sentados em frente ao computador, saltitam de um vídeo para álbuns de fotos, e de posts curtos para mensagens de até 140 caracteres. Não se aprofundam em temas onde o que reina é a superficialidade. Aí está o sucesso do Twitter. Um post de alguns parágrafos em um blog já virou uma tese. É preterido muitas vezes porque requer reflexão e entrega. O tempo é escasso para os terabytes de opiniões e novidades que pipocam na rede. Denize Dutra, psicóloga organizacional, especialista em educação para empresas, afirma que os nascidos depois de 1980 “não conseguem adiar as satisfações”. E há uma explicação pra isso.

A informação conduziu sobre si a evolução do homem. Sempre foi perseguindo o saber que o homem tornou-se mais forte, mais dominador e mais capacitado para domar a ciência e entendê-la a seu favor. Pois a informação tornou-se abundante. Mais do que isso, tornou-se disponível. Como não exigir que a satisfação seja postergada? Como admitir não iniciar a carreira como chefe se todo o seu contexto lhe parece facilmente acessível?

Conversávamos em aula dia desses sobre Érico Veríssimo. Acho que chegamos nele porque falávamos da dedicação que é necessária para escrever uma monografia de qualidade. E alguém citou o Veríssimo. Quanto tempo ele levara para escrever O Tempo E O Vento? Dois cliques? Encontrou os personagens e suas biografias prontas no Google? Nosso Érico construiu conhecimento. E isso, para os nascidos em 1980 ou ontem, mesmo parecendo estranho, é preciso que saibam: permanece inquestionavelmente inalterado. O verdadeiro conhecimento, aquele que nos dá a sensação de ter dado um passo a frente, esse só se constrói na exaustão. Que é o oposto do ligeiro.

Edgar Morin, um dos principais pensadores contemporâneos e teóricos da complexidade de nossa sociedade, não conheceu minha professora de história, nem seu par de seios ou sua metodologia pedagógica, mas está igualmente preocupado com este paradoxo de nossos tempos. Para ele, de um lado estão o saberes desunidos, divididos, compartimentados e, de outro, as realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais e globais. Para ele, não é razoável que alcancemos o conhecimento do todo se as partes do que sabemos não estiverem relacionadas umas com as outras. Não há mágica. Como a célula contém a totalidade do patrimônio genético, compara Morin, também a sociedade está contida em seus indivíduos, que não são o que são pelo isolamento, mas pelas conexões que fazem em seu habitat.

Denize Dutra expõe sua preocupação com o convívio empresarial que acontecerá – e já acontece aos montes – entre os jovens de 20 e poucos anos e os membros das gerações antecessoras. Não apenas no ambiente da organização, mas em todos os demais, teremos que, em primeiro lugar, valorizar as vantagens de quem nasceu há menos tempo. A Geração Y está mais preocupada com o equilíbrio carreira e vida pessoal, com o meio ambiente, é mais veloz, é empreendedora e tira proveito, com facilidade, dos recursos tecnológicos. Mais do que isso, transitam entre os mais modernos canais de informação, como as redes e mídias sociais, com extrema facilidade. Sabem encontrar um dado com bastante rapidez e eficiência.

Precisarão aprender, entretanto, o tempo de maturação das coisas. Este não mudou. Lidar com pessoas continua complexo; os problemas ainda precisam ser compreendidos para serem resolvidos; a experiência de alguém ainda é fundamental para uma série de processos; a cura de uma doença requer estudo e paciência.

E talvez esteja aqui o pulo do gato desta nova geração. Se souberem aliar sua incomparável habilidade em lidar com as partes ao conhecimento de quem se preocupa em encontrar a construção do todo, irão longe. Mais longe até do que os que os precederam. E mais longe com certeza de quem pensa nas aulas de História do ensino fundamental não lembra mais quase nada do que só decorou.

Juliano RigattiOs seios da minha professora de História
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Eu enganei o CLJ

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Em qualquer esporte, a tese mais conhecida de todos os técnicos e da diretoria é a que o time precisa saber, quando perde, porque perdeu, e saber, quando vence, porque venceu. Esta última, contudo, é a mais importante para que a tão desejada vitória se repita.

E vocês sabem que no CLJ (e no EJC, e no Cenáculo, e no Onda, e no ECC) essa máxima também vale?

Confesso pra vocês que assim como fui enganado pelo CLJ, eu, muitas vezes – e até sem saber –, tentei dar troco. Tentei enganar o CLJ. E presenciei muitos fazerem o mesmo.

Explico.

Os grupos de jovens – especialmente o de jovens – atraem pessoas com problemas familiares, com dificuldade de aceitação na roda de amigos e na sociedade, com necessidade de reconhecer a si mesmo. O CLJ cumpre num primeiro momento, portanto, uma nobre função social: a de elevar a auto-estima da gurizada, fazendo-os enxergar valor naquilo que são, naquilo que fazem, naquilo que acreditam. Isso tudo – é importante que se deixe claro – sem exigir em troca qualquer bem ou quantia em dinheiro. É fundamental que se registre essa diferença elementar entre esta proposta da Igreja Católica e muitas outras que nos são ofertadas por aí, e que estão presentes até nos centros das grandes metrópoles. Antes mesmo de catequizá-los, de convertê-los, o CLJ é uma instituição sem fins lucrativos, voltada à inclusão. E eu não precisaria repetir aqui que constatações como essa só aumentam minha admiração e minha paixão por este Movimento.

Mas e quando enganamos o CLJ?

Quando, pecadores que somos, nos aproveitamos dessa nova fase de auto-estima em alta e alimentamos nosso próprio orgulho, buscando interesses individuais, lançado mão de ferramentas como o egoísmo, a fofoca, o julgamento e a autopromoção. Ou você nunca foi testemunha de jovens que cantavam mais para mostrar a voz do que para louvar? Ou você nunca conviveu com coordenadores de equipes que mais pareciam políticos angariando votos e menos lideres pela causa de Cristo? Ou você nunca conheceu ninguém que confundia aumento de responsabilidade com aumento de glamour?

Amigos em Cristo, isso é enganar o CLJ!

Felizmente, as bases fortes do Movimento impediam, no meu tempo, essas práticas de prosperar. Imagino que ainda hoje as impeçam. Nunca mais esqueci o que o Pe. Flavio Canisio Steffen, então diretor espiritual de um curso aqui em Canoas, me disse, acho que em confissão: “Juliano, Deus não condena o pecador, mas é implacável com o pecado.” E por condenarmos o pecado, sem nunca perder a esperança no pecador, é que ajudamos este Movimento a prosperar. Porque o mesmo jovem que um dia canta para que o elogiem, um dia cantará por Deus e encherá os olhos de alguém de lágrimas. O mesmo que luta por causa própria um dia canalizará todo seu talento de comunicador para fazer daquele retiro o melhor retiro de todos. E o mesmo que deseja ser admirado como coordenador, um dia voltará para casa agradecendo a Deus por ter contribuído para a conversão de muitos apenas limpando o chão e os banheiros da casa onde o curso foi realizado.

Como no futebol, como no vôlei, também no CLJ é importante que saibamos porquê vencemos. Digo com a convicção de quem já venceu e de quem já viu muitos vencerem em Cristo: o segredo está no que entendemos por doação, por caridade. O segredo da vitória em um momento de espiritualidade, em uma palestra ou em um curso de três dias está em fazer com amor, não esperando absolutamente nada em troca. Se precisamos saber porquê vencemos, voltemos nosso olhar para a Eucaristia e sigamos o seu inesquecível exemplo de doação. Cristo entregou, sacrificou e consagrou seu corpo e sangue em nosso favor. Não desejou a fama, não desejou o reconhecimento, não desejou uma coroa mais brilhosa e dourada. Buscava naquele gesto simplesmente a nossa felicidade. E só por isso, costumo dizer, dividiu a nossa historia – e até a dos ateus – em A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo).

A tentativa de enganar o CLJ é a explicação para a derrota, se querem saber. Somos todos apóstolos, operários da grande messe. E o Espírito Santo é que nos capacita para que façamos o melhor de nós e nos prepara para que esperemos em troca do esforço a melhor das recompensas: a conversão do próximo.

Eu enganei o CLJ

Em qualquer esporte, a tese mais conhecida de todos os técnicos e da diretoria é a que o time precisa saber, quando perde, porque perdeu, e saber, quando vence, porque venceu. Esta última, contudo, é a mais importante para que a tão desejada vitória se repita.

E vocês sabem que no CLJ (e no EJC, e no Cenáculo, e no Onda, e no ECC) essa máxima também vale?

Confesso pra vocês que assim como fui enganado pelo CLJ, eu, muitas vezes – e até sem saber –, tentei dar troco. Tentei enganar o CLJ. E presenciei muitos fazerem o mesmo.

Explico.

Os grupos de jovens – especialmente o de jovens – atraem pessoas com problemas familiares, com dificuldade de aceitação na roda de amigos e na sociedade, com necessidade de reconhecer a si mesmo. O CLJ cumpre num primeiro momento, portanto, uma nobre função social: a de elevar a auto-estima da gurizada, fazendo-os enxergar valor naquilo que são, naquilo que fazem, naquilo que acreditam. Isso tudo – é importante que se deixe claro – sem exigir em troca qualquer bem ou quantia em dinheiro. É fundamental que se registre essa diferença elementar entre esta proposta da Igreja Católica e muitas outras que nos são ofertadas por aí, e que estão presentes até nos centros das grandes metrópoles. Antes mesmo de catequizá-los, de convertê-los, o CLJ é uma instituição sem fins lucrativos, voltada à inclusão. E eu não precisaria repetir aqui que constatações como essa só aumentam minha admiração e minha paixão por este Movimento.

Mas e quando enganamos o CLJ?

Quando, pecadores que somos, nos aproveitamos dessa nova fase de auto-estima em alta e alimentamos nosso próprio orgulho, buscando interesses individuais, lançado mão de ferramentas como o egoísmo, a fofoca, o julgamento e a autopromoção. Ou você nunca foi testemunha de jovens que cantavam mais para mostrar a voz do que para louvar? Ou você nunca conviveu com coordenadores de equipes que mais pareciam políticos angariando votos e menos lideres pela causa de Cristo? Ou você nunca conheceu ninguém que confundia aumento de responsabilidade com aumento de glamour?

Amigos em Cristo, isso é enganar o CLJ!

Felizmente, as bases fortes do Movimento impediam, no meu tempo, essas práticas de prosperar. Imagino que ainda hoje as impeçam. Nunca mais esqueci o que o Pe. Flavio Canisio Steffen, então diretor espiritual de um curso aqui em Canoas, me disse, acho que em confissão: “Juliano, Deus não condena o pecador, mas é implacável com o pecado.” E por condenarmos o pecado, sem nunca perder a esperança no pecador, é que ajudamos este Movimento a prosperar. Porque o mesmo jovem que um dia canta para que o elogiem, um dia cantará por Deus e encherá os olhos de alguém de lágrimas. O mesmo que luta por causa própria um dia canalizará todo seu talento de comunicador para fazer daquele retiro o melhor retiro de todos. E o mesmo que deseja ser admirado como coordenador, um dia voltará para casa agradecendo a Deus por ter contribuído para a conversão de muitos apenas limpando o chão e os banheiros da casa onde o curso foi realizado.

Como no futebol, como no vôlei, também no CLJ é importante que saibamos porquê vencemos. Digo com a convicção de quem já venceu e de quem já viu muitos vencerem em Cristo: o segredo está no que entendemos por doação, por caridade. O segredo da vitória em um momento de espiritualidade, em uma palestra ou em um curso de três dias está em fazer com amor, não esperando absolutamente nada em troca. Se precisamos saber porquê vencemos, voltemos nosso olhar para a Eucaristia e sigamos o seu inesquecível exemplo de doação. Cristo entregou, sacrificou e consagrou seu corpo e sangue em nosso favor. Não desejou a fama, não desejou o reconhecimento, não desejou uma coroa mais brilhosa e dourada. Buscava naquele gesto simplesmente a nossa felicidade. E só por isso, costumo dizer, dividiu a nossa historia – e até a dos ateus – em A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo).

A tentativa de enganar o CLJ é a explicação para a derrota, se querem saber. Somos todos apóstolos, operários da grande messe. E o Espírito Santo é que nos capacita para que façamos o melhor de nós e nos prepara para que esperemos em troca do esforço a melhor das recompensas: a conversão do próximo.

Juliano RigattiEu enganei o CLJ
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